sábado, agosto 25, 2012

RE-ENCANTAMENTO




Então existe o divino na atmosfera pós-moderna. O Re-encantamento, no sentido de que a eternidade não é mais esperada em hipotéticos outros mundos, religiosos ou políticos, que virão; e sim vivida no instante. Instante eterno, tudo de trágico se mistura, mas de intensidade igualmente, pois também trata-se de viver, aqui e agora, um prazer que não pretendemos adiar para amanhã. Eis o que induz a temática dionisíaca que se capilariza, de maneira teimosa, no todo do corpo social. Uma curiosidade que Heidegger consagra à meu querido deus resume bem tal sensibilidade teórica:

“[...] É Dionísio, o deus do vinho, que no meio da noite deixa aos mortais desprovidos dos deuses esse vestígio. Porque o deus do vinho guarda, neste e em seu fruto, a originária participação recíproca do céu e da terra, enquanto local de união dos deuses e dos homens [...]”

A co-participação do céu e da terra, da vegetação e dos homens, não é isso que celebram as festas pagãs as quais a atualidade não economiza. Aliás, é instrutivo perceber que mesmo as tribos de música techno ou gótica, sem conhecimento específico do gesto dionisíaco vão, frequentemente e com ostentação, abrigar-se debaixo do homônimo de Dionísio. Homônimo? Eles nem mesmo sabem o que isto significa.

Pouco importa, pois ao utilizá-lo eles anteveem que este deus “leva” o nome da “coisa” que eles vivem: a exuberância, a expansão do prazer no aqui e agora. Sim, pode ser que nos cultos extáticos dos agrupamentos musicais haja esta celebração sem freio de forma demasiada. Percebemos isso, a meu ver, nas histerias religiosas e no transbordar de alegria nas noites de vitórias eleitorais. É também o caso das cerimônias fúnebres no caso da morte de alguma estrela musical, religiosa ou política. Em suma, há o emocional no ar.

Michel Maffesoli

domingo, agosto 12, 2012

UM MUNDO DESENCANTADO

Quando olhamos para o mundo moderno verificamos uma virada no significado e no valor da ciência. Se antes a ciência e a política estavam unidas - a ciência estabelecendo regras práticas/morais para os homens, dando um sentido à existência humana -, na modernidade a situação muda completamente. Para o sociólogo Max Weber, se antes as ciências exatas ou naturais esperavam descobrir traços das intenções divinas, por meio do exame da natureza, ou seja, encontrar a caminho que nos conduziria a Deus, hoje, no mundo desencantado, é raro encontrar quem acredite que os conhecimentos astronômicos, biológicos, físicos ou químicos possam ensinar-nos algo a propósito do sentido do mundo, pois são esses conhecimentos científicos que extirpam qualquer possibilidade de existência de significado no universo. E isso é iniciado pela filosofia Bacon/Cartesiana, embora nelas ainda estivesse presente uma concepção de ciência que, como técnica de domínio da natureza,  nos levaria a algo que se aproximaria do bem viver.


No discurso do método, Descartes se propõe a construir conhecimentos "que sejam muito úteis à vida", pois conhecendo a força e as ações do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e de todos os corpos que nos cercam (...) poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para os quais são próprios, e assim nos tornar como que senhores e possuidores da natureza. E com isso permitindo-nos gozar dos frutos da terra e [de] todas as comunidades que nela se acham, mas principalmente também para a conservação da saúde, que é sem dúvida o primeiro bem e o fundamento de todos os outros bens desta vida.


Diferentemente, Weber considera que uma das contribuições que a ciência não poderia dar é justamente essa:

"Depois da devastadora crítica feita por Nietzsche aos "últimos homens" que inventaram a felicidade, posso deixar totalmente de lado o otimismo ingênuo no qual a ciência - isto é, a técnica de dominar a vida que depende da ciência - foi celebrada como caminho para a felicidade. Quem acredita nisso? - à parte algumas poucas crianças grandes que ocupam cátedras universitárias".

Nesse sentido, a posição cartesiana seriam as últimas manifestações de uma concepção de ciência e de homem e, ao mesmo tempo, o alvorecer de um novo entendimento e de uma atitude que demonstraria a nossa incapacidade de atribuir um significado último e objetivo sobre o mundo. Foram destruídas as ilusões em que outrora se pautava - o caminho ao "verdadeiro Deus" , à "verdadeira arte", à "verdadeira natureza", "à verdadeira felicidade". No mundo, agora destituído de sentido de um 'valor último' que o explique e o unifique, a ciência é, atualmente, uma vocação alicerçada na especialização e posta a serviço de uma tomada de consciência de nós mesmos e do conhecimento das relações objetivas. (Weber, 1995, p. 47).

Ela não seria mais produto de revelações, nem graça que um profeta ou visionário pudesse ter recebido para assegurar a salvação das almas. Não haveria mais lugar no mundo para essa mistificação esperançosa da ciência. O mundo perdeu aquele sentido universal, teleológico, como encontrado no pensamento metafísico/religioso. Essa perda de sentido seria resultado do esvaziamento que as grandes concepções do mundo teriam sofrido. O mundo desencantado teria separado a busca do saber da busca do bem viver. Não se procura o saber para viver de acordo com verdades descobertas pela ciência. Essa não busca não deve e não pode ter a finalidade de indicar aos homens os caminhos que devem seguir as normas a que devem sujeitar a sua existência. A racionalização intelectualista teria deixado no coração dos homens um grande vazio, tornando a existência humana cada vez mais fútil, menos digna de ser vivida, uma existência em que os homens se enfastiam, cansam-se e não se saciam da vida.

domingo, julho 15, 2012

O CONCEITO DE DEUS EM KANT


No tocante à possibilidade de conhecer a Deus pela razão teorética, Kant também adotou uma posição agnóstica. Segundo ele, a razão especulativa não logra demonstrar a existência de Deus com certeza.  Essa posição do filósofo de Königsberg teve conseqüências enormes. Ainda hoje muitas pessoas pensam não valer a pena ocupar-se do problema de Deus e de provas para sua existência, por ter Kant demonstrado, uma vez por todas, ser impossível arrolar argumentos. De si, para discutir esse assunto, dever-se-ia tomar em consideração o sistema kantiano em sua totalidade. Aqui vamos limitar-nos a algumas achegas.

A tese agnóstica relativa à existência de Deus constitui a conseqüência lógica da concepção de Kant, no concernente à teoria do conhecimento, isto é, relativamente às categorias de espaço e tempo. A conseqüência é evidente: só logramos conhecer e afirmar com certeza o que é acessível à experiência dos sentidos, ou melhor, o que se enquadra nas categorias de espaço e tempo. Kant, porém, está convencido de que pertence à natureza do pensamento sintetizar tudo numa unidade fundamental. Ao mesmo passo, a idéia de Deus encerra uma função reguladora. É, pois, mister frisar que Kant jamais negou a existência de Deus. Ele apenas afirmou que a razão pura não consegue dar uma resposta positiva nem negativa, fundada cientificamente, a respeito da existência de Deus. Restringindo a certeza do conhecimento à razão pura, com suas categorias, o filósofo Kant negou o acesso à metafísica.

Depois de espalhar ruínas acumuladas pela crítica da razão pura, Kant empreende a reconstrução filosófica. A base é a obrigação moral, o Sollen, o imperativo categórico, o qual nada mais é do que o dever oriundo da voz da consciência. A fórmula mais simples do imperativo categórico reza assim: “Procede em todas as tuas ações de modo que a norma do teu agir possa ser elevada a categoria de lei universal”. 

Isso significa que o homem sente-se livre. Ora, a liberdade é uma faculdade espiritual que tem sua sede na alma. Se não fora livre, não poderia haver obrigação moral. Portanto, liberdade e alma são postulados irrefugíveis. Porém, há mais. Não deve o homem agir esperando recompensa numa outra vida. Mister se faz pautar-se tão-só pelo  Sollen. Para Kant, a alma é imortal. Nesta vida, a virtude nunca é completa, motivo por que só numa outra vida a felicidade pode ser plena. Só um Deus justo é capaz de replenar o desejo de total felicidade. Torna-se necessário relevar que a idéia do dever, da qual Kant deriva verdades não-cognoscíveis pela razão pura, não aponta para uma verdade científica ou filosófica, mas constitui uma fé moral, uma certeza de fé.


Fonte: É IMPOSSÍVEL CONHECER DEUS PELA RAZÃO? Reinholdo Aloysio Ullmann

sábado, junho 30, 2012

O CONCEITO DE DEUS EM SPINOZA



O Deus de Spinoza é a substância única, ou, por outras palavras, aquilo além do que nada pode existir nem ser concebido. Essa definição afirma Deus como a totalidade do ser, mas o ser, a Natureza, não corresponde a um horizonte sem limites estendido sobre a eternidade: o ser é as coisas que são. Começar pelo absoluto, isto é, pelo que não se determina por nenhuma relação ou diferença singular, é o mesmo que começar pelo nada. 


Hegel objetará que o vazio da filosofia de Spinoza está na idéia de uma substância que, apreendida sem mediação dialética anterior, é apenas o abismo informe que engolfa todas as coisas. A tese de Althusser, porém, vai em outra direção: o Deus de Spinoza não é diferente da Natureza, “ele é unicamente Natureza”. Deus não pode ser um ponto de partida, uma vez que não existe como objeto determinado ou cuja definição envolva uma relação. 


Começar por Deus significa começar de qualquer lugar, nunca de um início. Spinoza não se reporta a uma origem ou sentido, não edifica sua ontologia sob a sombra imensa de um Criador dotado de inteligência e vontade: o ser é a produção do ser, a eterna constituição de sua atualidade. 

sábado, junho 23, 2012

O CONCEITO DE DEUS EM KIERKEGAARD




“O importante é entender –me a mim mesmo, é perceber o que Deus realmente quer que eu faça; o importante é achar uma verdade que é verdadeira para mim, achar a idéia em prol da qual posso viver e morrer” Journals p.44. In Filosofia e Fé Cristã, Colin Brown 

Em 1848, Kierkegaard passou pela experiência de conversão e registrou em um de seus Jounals o seguinte testemunho: “A totalidade do meu ser está transformada... Mas a crença no perdão dos pecados significa crer que aqui no tempo o pecado é esquecido por Deus, que é realmente verdade que Deus o esquece.” Kierkegaard se opunha a Hegel e ridiculariza os argumentos abstratos da metafísica especulativa. Ele escreve sobre Hegel em 1850: 

“Quantas vezes demonstrei que fundamentalmente Hegel torna os homens em pagãos, em raça de animais com o dom do raciocínio. No mundo animal, pois, "indivíduo” sempre é menos importante do que raça. Mas a peculiaridade da raça humana é: justamente porque o indivíduo é criado à imagem de Deus, o “indivíduo” está acima da raça. Isto pode ser entendido erroneamente e terrivelmente abusado, reconheço. Mas isso é o cristianismo. E é aí que a batalha deve ser travada.” Journals. 

Para Kierkegaard a subjetividade isolada é má, assim como a objetividade de Hegel por si só, também é má. Para ele, a única salvação era a subjetividade. Deus era como uma subjetividade infinita e compulsora. Por se tratar o cristianismo de uma religião histórica e em decorrência das críticas desta realidade, Kierkegaard escreveu que os resultados dos fatos históricos para ele eram incertos, o importante era a escolha subjetiva. Crer em Deus era um salto de fé, um comprometimento com o absurdo. A pessoa faz uma escolha por aquele fato histórico porque este significa tanto para ela que até arrisca a vida por ele. “ Então vive; vive inteiramente cheio da idéia, e arrisca sua vida por ela; e sua vida é a prova de que crê”. Não precisa haver provas para a pessoa crer e viver esta fé. A fé é impossível se houver provas e certezas. Sem riscos não há fé, é uma impossibilidade. A fé e a razão são opostas mutuamente exclusivas. 

O autor Colin Browm compara o conceito de Deus de Kierkegaard comum à estória do Mágico de Oz, ou seja, não é tanto a sua existência o que importa, mas o pensamento sobre sua existência. Nesta estória, o homem de palha, o homem de latão e o leão covarde mudam o curso de suas vidas porque crêem no Mágico de Oz. Porém, no final, este mágico é na verdade um homem comum. Do mesmo modo para Kierkegaard, o pensamento a respeito de Deus o impulsionava para reagir, de certa forma, mais do que o encontro com o próprio Deus.

Surge no conceito de Deus no pensamento de Kierkegaard, uma palavra chave: o amor. É por amor que Deus deve decidir-se eternamente a agir, mas como seu amor é a causa, seu amor deve também ser o fim. Deus quer restabelecer a igualdade entre Si e o homem (discípulo), assim com um rei que se apaixona por uma plebéia. Tal idéia per si é incongruente, mas o rei é o rei, acima de tudo. Segundo Kierkegaard, “Deus encontra sua alegria em vestir ao lírio com mais esplendor que Salomão” (Fragmentos Filosóficos, p. 59). O amor de Deus não somente ensina, mas também leva a um novo nascimento do discípulo, passando do não ser ao ser, pois “o fazer nascer pertence a Deus cujo amor é regenerador” (Fragmentos, p. 68). 

Deus busca a unidade, de Si com o não ser do homem. Assim, “para obter a unidade, Deus deve se fazer igual ao seu discípulo”, e para isto toma a forma de servo. Deus sofre a fome, o deserto, tudo experimenta por amor ao discípulo. Kierkegaard afirma que só Deus pode salvar o indivíduo do desespero: “Deus pode a todo instante...” (Chaves, Odilon. Sofrimento e Fé em Kierkegaard, 1978. p. 36). Não seria também por isso que ele afirma que se deve “tremer” diante de Deus? “É impossível enganar a Deus, Ele é o onisciente, o onipotente” (Attack Upon Christendom, p. 255). E ainda, “Ele é o único que tem uma verdadeira concepção do infinito que Ele é” (Attack Upon Christendom, p. 255). 

Por outro lado, Kierkegaard menciona ser fácil o enganar a Deus. Não que Deus não notaria a “presença” do homem tentando agradá-lo. Deus, na verdade, cria uma situação na qual o homem, se ele quiser, pode “enganar” a Deus. Como isto é possível? Deus permite que o homem sofra para que ele perceba que é um abandonado de Deus, e que tenta enganá-lo, e, se Deus, na opinião do homem não está atento para este fato, o homem enganou a Deus (Attack Upon Christendom, p.256). Por isso diz Kierkegaard: “Tremei!”

No tocante à justiça de Deus, Kierkegaard diz que cada criminoso, cada pecador, que pode ser punido neste mundo, pode também ser salvo para a eternidade. Na eternidade, o que será lembrado? O sofrer, aqui, pela verdade. Todas as transações neste mundo têm como filtro o intelectualismo e a espiritualidade, sendo Deus nos Céus o parceiro. 


http://existencialismo.sites.uol.com.br/kierkegaard.htm





sábado, maio 26, 2012

O existencialismo é um humanismo



Ao concebermos um Deus criador, identificamo-lo, na maioria das vezes, com um artífice superior, e, qualquer que seja a doutrina que considerarmos - quer se trate de uma doutrina como a de Descartes ou como a de Leibniz -, admitimos sempre que a vontade segue mais ou menos o entendimento ou, no mínimo, que o acompanha, e que Deus, quando cria, sabe precisamente o que está criando. Assim, o conceito de homem, no espírito de Deus, é assimilável ao conceito de corta-papel, no espírito do industrial; e Deus produz o homem segundo determinadas técnicas e em função de determinada concepção, exatamente como o artífice fabrica um corta-papel segundo uma definição e uma técnica. Desse modo, o homem individualmente materializa certo conceito que existe na inteligência divina. No século XVIII, o ateísmo dos filósofos elimina a noção de Deus, porém não suprime a idéia de que a essência precede a existência.


O homem possui uma natureza humana; essa natureza, que é conceito humano, pode ser encontrada em todos os homens, o que significa que cada homem é um exemplo particular de um conceito universal: o homem.



O existencialismo ateu... Afirma que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito: este ser é o homem, ou, como diz Heidegger, a realidade humana. O que significa, aqui, dizer que a existência precede a essência? Significa que, em primeira instância, o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define.



O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer si mesmo. Assim, não existe natureza humana, já que não existe um Deus para concebê-la. O homem é tão somente, não apenas como ele se concebe, mas também como ele se quer; como ele se concebe após a existência, como ele se quer após esse impulso para a existência. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo. É também a isso que chamamos de subjetividade: a subjetividade de que nos acusam. Porém, nada mais queremos dizer senão que a dignidade do homem é maior do que a da pedra ou mesmo a da mesa. Pois queremos dizer que o homem, antes de mais nada existe, ou seja, o homem é, antes de mais nada, aquilo que se projeta num futuro, e que tem consciência de estar se projetando no futuro. De início, o homem é um projeto que se vive a si mesmo subjetivamente ao invés de musgo, podridão ou couve-flor; nada existe antes desse projeto; não há nenhuma inteligibilidade no céu, e o homem será apenas o que ele projetou ser.



SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Traduções de Rita Correa Guedes, Luiz Roberto Salinas Fortes, Bento Prado Júnior. São Paulo: Abril Cultural, 1984 (Os pensadores) 

quinta-feira, maio 03, 2012

Novo Padrão de Consumo




Gilles Lipovetsky respondendo a pergunta: "Quais seriam os principais objetos de desejo nesse novo padrão de consumo?" formulada pela revista Veja no ano de 2002,  Responde que em um primeiro momento, este chamado "novo padrão de consumo", estaria exigindo objetos como a comunicação, através de suas novas e modernas ferramentas, como por exemplo o computador, o acesso à internet (com velocidades vez maiores), telefones celulares (cada vez com mais funções) etc. Atualmente, o bem-estar está associado à mobilidade, ao acesso à informação e à rapidez. O que seduz na comunicação passa, cada vez mais, por tudo que acelera as coisas, pela possibilidade de estar conectado com o externo, com os outros. Em outro grupo, estão os objetos de sedução ligados ao corpo e à saúde. Existe uma verdadeira obsessão pela saúde e tudo que contribui para nos tornar mais jovem e em forma. Uma alimentação mais saudável exerce uma sedução muito forte nos consumidores. É um novo padrão, em que a saúde e a segurança ocupam lugar de destaque. Um forte argumento de venda de carros de luxo, por exemplo, são os sistemas de proteção ao corpo, como o air bag e os mecanismos contra roubo.

Mais sobre "novo padrão de consumo"? visite: http://www.vendas-diretas.blogspot.com


sexta-feira, abril 27, 2012

Cultura, Consumo e Sistemas de Significação


Em “Cultura e razão prática”, Marshall Sahlins (1979) defende a idéia de que a sociedade capitalista, orientada pela racionalidade econômica, como que desprovida das dimensões culturais e do simbólico, é, na verdade, por si mesma, uma forma específica de ordem cultural, pois o universo da produção e do consumo constituem, por meio de suas estruturas econômicas e sociais, produção simbólica dessa sociedade. Vemos, portanto, que não apenas as sociedades ditas exóticas são providas de sistemas de significação que orientam sua dinâmica social, mas a dita racionalização econômica engendra sistemas de valores que passam a ordenar a sociabilidade e tornam-se representáveis por meio das atividades “racionalizantes” de produção e consumo de bens, produtos que, hoje em dia, são muito menos funcionais e muito mais representações simbólicas de estratos sociais e relações verticais de poder, servindo ao antropólogo como bons para pensar a sociedade em que circulam. Se a economia rege a estrutura e as dinâmicas sociais desses grupos, por que não convertê-la em reflexão antropológica em suas esferas mais representativas – a produção e o consumo que, como práticas verdadeiramente rituais das sociedades complexas, representam parte fundamental do sistema de representações na sociedade capitalista?
Podemos, portanto, argumentar que uma antropologia das sociedades complexas deva voltar seus esforços de investigação às estruturas determinantes de tais sociedades, e não à periferia delas, de forma que uma etnografia das relações capitalistas de produção e consumo constitui uma verdadeira etnografia das sociedades complexas, pois investiga não os resultados do sistema capitalista entre as minorias, mas a forma como esse sistema se constitui e se reproduz em suas esferas principais, pesquisando a maneira como sua dinâmica racionalizante orienta as determinantes culturais e os sistemas simbólicos dessas sociedades. Enfatizamos aqui a dimensão simbólica do consumo como prática de representação das estruturas de significação da sociedade capitalista. Consumir torna-se, sob o ponto de vista antropológico, verdadeira prática ritual que representa a organização social e o universo simbólico dessas sociedades, pois, conforme Jean Baudrillard (1997: 206),
o consumo é um modo ativo de relação (não apenas com os objetos, mas com a coletividade e com o mundo), um modo de atividade sistemática e de resposta global em que se funda todo o nosso sistema cultural [...]. O consumo, pelo fato de possuir um sentido, é uma atividade de manipulação sistemática de signos.
Esse modo ativo de relação de que nos fala Baudrillard sugere que o consumo é o deslocamento das relações interpessoais para a representação delas próprias por meio dos objetos. O indivíduo não consome a materialidade do produto (razão pela qual o aspecto funcional dos produtos de grandes marcas é menos importante que seu valor de representação), mas os significados que, por intermédio do produto, geram um conluio social em torno de valores compartilhados pela sociedade capitalista.

“Por uma etnografia das práticas de consumo” - Valéria Brandini
SAHLINS, Marshall. Cultura e razão prática. Rio de Janeiro: Zahar, 1979

BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Tradução de Artur Mourão. Rio de Janeiro: 
Elfos, 1995.
______________.  Para uma crítica da economia política do signo. São Paulo: Martins Fontes, 
1983.
______________. O sistema dos objetos. São Paulo: Perspectiva, 1997

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

EFEITOS DA GLOBALIZAÇÃO



O avanço tecnológico, a interligação e a interdependência dos mercados financeiros em escala mundial encurtaram as distâncias, unificaram e baratearam a informação e estão promovendo a padronização da cultura e do comportamento por meio de tevês a cabo, filmes, livros, fluxos migratórios e, mais recentemente, da internet.
O movimento da globalização tende a criar uma cultura de consumo padronizada por meio de uma estratégia mundialmente unificada de marketing, destinada a uniformizar a imagem dos produtos aos olhos dos consumidores.
Sob certos aspectos, o mundo está se tornando uma "aldeia global". Empresas gigantescas estão atravessando as fronteiras nacionais e se instalando em vários países; o avanço tecnológico na área da informática e das telecomunicações tem permitido a agilidade nas transações comerciais e no intercâmbio de informações; a abertura dos mercados nacionais às importações, favorecida por baixas tarifas alfandegárias, deu um grande impulso ao fluxo de mercadorias, fazendo explodir o comércio mundial.
O processo de globalização provocou também um efeito devastador; o desemprego, que atinge tanto os países subdesenvolvidos da América Latina, Ásia e África como as nações industrializadas da América do Norte, da Europa e da Ásia.
Na história da formação e consolidação do sistema capitalista, os níveis de desemprego acompanharam as fases de crescimento e de retração econômica, crescendo nos períodos de crise e reduzindo-se logo que a economia dava sinais de recuperação. A partir das últimas décadas do século XX, porém, surgiu uma modalidade de desemprego não decorrente de crises econômicas nem da redução dos investimentos nas atividades produtivas, mas da revolução tecnológica. É o chamado desemprego estrutural.
O desemprego estrutural resulta do avanço tecnológico, isto é, do aperfeiçoamento do processo da capacidade produtiva das empresas pela aplicação de novas tecnologias e de novas formas de organização do trabalho. Se por um lado essas transformações resultam no aumento de produtividade, por outro reduzem a quantidade de trabalhadores necessários à produção, pois fazem com que muitas funções deixem de existir. Por exemplo: o e-mail, mais ágil e prático, substitui a correspondência tradicional, provocando a extinção de postos de trabalho nos correios.
No Brasil, como nos demais países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, a globalização econômica tem elevado as taxas de desemprego e ampliado a distância entre ricos e pobres.

terça-feira, janeiro 17, 2012

MOTIM DE CONSUMIDORES EXCLUIDOS

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman considera que "as explosões ocorridas em Londres são uma combinação de desigualdade social e consumismo”.

Radicado em Londres desde 1968, o sociólogo Zygmunt Bauman, afirmou, em entrevista para o Globo, que as imagens da cidade representaram uma revolta motivada pelo desejo de consumir, não por qualquer preocupação maior com mudanças na ordem social. Para ele, a capital britânica viu os distúrbios do consumidor excluído e insatisfeito.

O quão irônico foi para o senhor ver os distúrbios se concentrando na pilhagem de roupas e artigos eletrônicos?

Esses distúrbios eram uma explosão pronta para acontecer a qualquer momento. É como um campo minado: sabemos que alguns dos explosivos cumprirão sua natureza, só não se sabe como e quando. Num campo minado social, porém, a explosão se propaga, ainda mais com os avanços nas tecnologias de comunicação. Tais explosões são uma combinação de desigualdade social e consumismo. Não estamos falando de uma revolta de gente miserável ou faminta ou de minorias étnicas e religiosas reprimidas. Foi um motim de consumidores excluídos e frustrados.

Mas qual a mensagem que poderia ser comunicada?

Estamos falando de pessoas humilhadas por aquilo que, na opinião delas, é um desfile de riquezas às quais não têm acesso. Todos nós fomos coagidos e seduzidos para ver o consumo como uma receita para uma boa vida e a principal solução para os problemas. O problema é que a receita está além do alcance de boa parte da população.

Trata-se de um desafio a mais para as autoridades na tarefa de acalmar os ânimos, não?

O governo britânico está mais uma vez equivocado. Assim como foi errado injetar dinheiro nos bancos na época do abalo global para que tudo voltasse ao normal - isso é, as mesmas atividades financeiras que causaram a crise inicial - as autoridades agora querem conter o motim dos humilhados sem realmente atacar suas causas. A resposta robusta em termos de segurança vai controlar o incêndio agora, mas o campo minado persistirá, pronto para novos incêndios. Problemas sociais jamais serão controlados pelo toque de recolher. A única solução é uma mudança cultural e uma série de reformas sociais. Senão, a mistura fica volátil quando a polícia se desmobilizar do estado de emergência atual.

Mais problemas são inevitáveis, então?

Enquanto não repensarmos a maneira como medimos o bem-estar, sim. A busca da felicidade não deve ser atrelada a indicadores de riqueza, pois isso apenas resulta numa erosão do espírito comunitário em prol de competição e egoísmo. A prosperidade hoje em dia está sendo medida em termos de produção material e isso só tende a criar mais problemas em sociedades em que a desigualdade está em crescimento, como no Reino Unido.

Disponível em: http://migre.me/7zspS

quarta-feira, novembro 30, 2011

Cultura como Produto


De acordo com Jean Baudrillard (1995, p.18), o consumo não se caracteriza apenas pela venda de produtos, mas também a venda de “matéria cinzenta”: a cultura como produto é o que nos leva a sermos a sociedade de consumo.

Chegamos ao ponto em que o consumo invade toda a vida, em que todas as atividades se encadeiam do mesmo modo combinatório, em que o canal das satisfações se encontra previamente traçado, hora a hora, em que o envolvimento é total, inteiramente climatizado, organizado, culturalizado. (BAUDRILLARD, 1995, p.19)

Devemos entender, portanto, que na atualidade, o fenômeno do consumo transcende o ato da mera aquisição do necessário e justificável, para tornar-se o “clímax” da vida humana. O SER se transforma no TER e a “climatização geral da vida” é o acontecimento do consumo, do consumir. Ainda de acordo com Baudrillard (1995), os homens da riqueza acabam por, não mais serem rodeados de outros homens, mas sim, serem rodeados por objetos que os definem como homens da opulência.

Jameson (1996) caracterizou o pós-modernismo não como um estilo, que simplesmente marca a arquitetura ou as artes, mas afirma tratar-se sim de uma dominante cultural. Desta forma a sociedade de consumo, da qual fala Jameson (1996), é a própria sociedade das mídias e da informação, que não identifica mais a fronteira entre a alta cultura e a cultura de massa.

Numa transformação inédita e espetacular daquilo que não era produto para o que hoje é totalmente vendável, a sociedade de consumo, referida por Jameson (1996), se posta como um resultado da globalização, que por sua vez é a conseqüência de um boom da produção em massa da sociedade industrial. Aquilo que por hora se passava como um elemento da sociedade sem vínculo lucrativo, como as identidades culturais, hoje estão em qualquer mercado popular ou shopping center à venda, como um simples tomate de feira ou com o valor de um vinho do porto.

segunda-feira, novembro 14, 2011

As Filosofias da Existência



Nas primeira décadas do século XX, o mundo estava em crise.

A filosofia também.

A esperança de um mundo mais livre e mais justo não se concretizara, trazendo a descrença na política e na ideia de história como progresso.

Freud explora o inconsciente. Diversos pensadores passam a questionar o sentido da vida humana.

Explodem as guerras, a barbárie fascista, a revolução sexual, o anseio de liberdade dos povos oprimidos. A força dos fatos históricos é, enfim, grande demais para ser ignorada.

Atenta às complexidades do mundo, a filosofia incorpora as discussões sociais, éticas e existenciais do período.

Sem Deus para lhe dizer como agir, e repelindo a voz ditatorial do Estado totalitário, o homem contemporâneo sente toda a solidão de, por conta própria, construir seu próprio destino.

Vivencia, assim, um sentimento de angustia, vazio e desemparo. E parte em busca de sentido da existência, o que marcaria profundamente essa nossa época de ansiedade, o século XX.

Iniciado o século XXI, parece que nada mudou, ou estou enganado?



quinta-feira, agosto 11, 2011

Sociedade de Consumo

Zygmunt Bauman, escrevendo sobre a "Cultura Consumista", enfatizou a relação existente entre o indivíduo e a mercadoria onde o primeiro depende do segundo, oferecendo uma espécie de segurança ao sujeito. Essa relação estaria, de acordo com Bauman, estreitamente ligada com a contemporaneidade designada por ele como sociedade líquida e efêmera, o que favorece o processo cíclico do consumo.

Para o autor a correlação existente entre a questão consumista e a produtivista, nega a satisfação pelo uso do comum e do duradouro, o que justificaria a moda descartável e passageira, mas sempre a serviço do ciclo do capital. Por essa razão a satisfação do consumidor nunca será completa, uma vez que o consumo depende desta negação e do não atendimento de suas necessidades.

No "consumismo" o tempo e a duração da mercadoria são requisitos para manter as economias das empresas, isso torna o tempo volátil, inclusive sendo favorecido pela virtualidade como modo de vida e engajamento político.

Por tudo isso, de acordo com Bauman, as pessoas procuram se exibir como uma necessidade, mudando sua identidade conforme as demandas sociais, assumindo a forma de mercadorias, numa busca constante para encontrar o seu eu estabelecido pela sociedade numa tentativa de fugir das incertezas.


BAUMAN, Zygmunt. Vida para Consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Editora: Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2008.

segunda-feira, julho 25, 2011

Revolução da Incerteza

"A revolução contemporânea é a da incerteza" (J. Baudrillard)

Como produto do capitalismo, notadamente em sua fase denominada "flexivel", tem-se A Revolução da Incerteza.

Neste contexto a "economia da permanência" cede lugar à chamada "economia da transitoriedade": tudo passa;

A obsolescência é planejada;

Os pontos de referência desaparecem;

Os fluxos (de pessoas, imagens, informações, equipamentos...) são intensificados.

O declínio das metanarrativas* impede a afirmação de qualquer grande verdade. Isto faz da Pós-Modernidade o lugar do efêmero, do fugaz e, portanto, o lugar da incerteza.

*Na filosofia e na teoria da cultura, uma metanarrativa assume o sentido de uma grande narrativa, de nível superior (meta: é um prefixo de origem grega que significa "para além de"), capaz de explicar todo o conhecimento existente ou capaz de representar uma verdade absoluta sobre o universo. A Bíblia e o Alcorão são exemplos de metanarrativas universalmente conhecidas.

terça-feira, julho 19, 2011

Apontamentos acerca da Pós-Modernidade (Introdução)



A Pós-Modernidade caracteriza-se por mudanças significativas provocadas e vividas pelo homem, dentre as mais evidentes e que desencadearam inúmeras outras, aponta-se a globalização, uma tentativa de unificar as sociedades do planeta, uma nova ordem de cultura que, segundo alguns teóricos, estaria colocando em perigo a continuidade da espécie humana.

Para muitos desses teóricos (em especial filósofos e sociólogos), a Pós-Modernidade é marcada por fenômenos que representam um divisor de águas com a Modernidade. Surgida a partir da desconstrução de princípios, conceitos e sistemas construídos na modernidade, esse novo tempo estaria desfazendo todas as amarras da rigidez que foi imposta ao homem moderno. Assim, valores supremos como o FIM, representado por Deus, a UNIDADE, simbolizada pelo conhecimento científico e a VERDADE, como os conceitos universais e eternos, já estudados por Nietzsche no fim do século XIX, entraram em decadência acelerada na Pós-Modernidade.

Por conta disso, para a maioria dos autores, a Pós-Modernidade é traçada como a época das incertezas, das fragmentações, da troca de valores, do vazio, do niilismo, da deserção, do imediatismo, da efemeridade, do hedonismo, da substituição da ética pela estética, do narcisismo, da apatia, do consumo de sensações e do fim dos grandes discursos.

domingo, julho 03, 2011

A RELIGIÃO







"QUEM ELIMINA A RELIGIÃO ELIMINA A TODO E QUALQUER FUNDAMENTO DA SOCIEDADE HUMANA" Platão

A religião representa o imaginário social, ao mesmo tempo em que fala da capacidade humana de idealizar, de representar e de pensar a sociedade. Por ser agregadora, a religião denota um lugar privilegiado para significar e conduzir as mais diversas práticas coletivas. Tangencia a experiência humana, por isso fala do encontro entre os distintos contextos sociais, da realidade individual e da experiência transcendental. Manifesta-se na orientação do cotidiano, regulando-o.

Por outro lado a religião também constitui-se em grupos, definindo ritos, cerimônias, normas, modelos e hierarquizações. Envolve o real, o factível, o telúrico. Mas não somente, apesar de intrínseca ao cotidiano, dialoga com situações que, talvez, escapem ao controle da domesticação moderna, como o transe e a possessão. Permeia o mundo moderno, transcende a lógica da produção e do acúmulo capitalista. É capaz de confrontar os modelos da racionalidade e da utilidade, fazendo possível o re-encantamento da experiência humana, para além da "jaula de ferro".

terça-feira, maio 03, 2011

CULTURA E CONSUMO

O desejo ou sentimento de pertencimento a um determinado grupo social é que faz com que a pessoa se sinta aceita, não marginalizada. A exclusão do grupo por ocasião de uma ação adversa, talvez seja a penalidade mais radial para um integrante de determinado grupo. Ser preso, por exemplo, quando se comete um crime, representaria a exclusão do grupo. É muito importante para o ser humano ser aceito e, culturalmente pertencer a algum grupo social. Ser expulso de um grupo é uma pena duríssima para um indivíduo.
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O vínculo entre sentido de pertencimento e a cultura é bastante estreito. A cultura constrói a maneira como nos apresentamos socialmente e como faremos nossos julgamentos no interior de determinado grupo. Estes julgamentos ou escolhas que em um primeiro momento parecem eventos individuais, sofrem grande influência cultural do grupo em que estamos inseridos. A moda é o exemplo clássico dessa influência.
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O ser humano costuma festejar a liberdade, julga-se livre para fazer suas escolhas, contudo, é manipulado a cada instante e essa manipulação condiciona todas as suas escolhas, na hora de vestir, na hora de escolher o corte ou a tintura dos cabelos e até na maneira de formular seus pensamentos e idéias. De acordo com a Professora Tatiana Alméri, é assim que o homem se comporta nessa dinâmica do consumo:
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Ou seja, para uma interpretação objetiva do circulo proposto pela autora, o consumo faz com que sejamos inseridos em um grupo que consome aquele tipo de bem ou serviço que acabamos de adquirir. Inconscientemente ao entrar no grupo nos sentimos satisfeitos. Essa satisfação permanecerá até o momento em que um novo produto chega no mercado.
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Aí começa tudo novamente, no momento em que há um novo lançamento e, por alguma razão não o consumimos, somos excluídos do grupo (lembre-se que essa exclusão representa culturalmente a maior penalidade para o homem), consequentemente nos sentimos insatisfeitos e somos impulsionados a uma nova compra, um novo consumo para que ocorra novamente nossa inserção em um grupo, sintamos satisfação e o ciclo se concretize.



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sábado, abril 30, 2011

CONVERGÊNCIAS ENTRE NIETZSCHE E ESPINOZA




De acordo com André Martins, Professor associado da UFRJ, onde leciona nos departamentos de Filosofia e Medicina Preventiva, os grandes filósofos Nietzsche e Espinoza não tiveram em comum apenas a incompreensão ou mesmo a imagem de "malditos", ele destaca aspectos que aproximam os dois filósofos. Esses aspectos, segundo ele é exatamente o que está na origem do fato de eles terem sido incompreendidos e considerados malditos. As filosofias de um e de outro têm pontos comuns que sempre foram polêmicos e pouco aceitos. Mas é o próprio Nietzsche quem dá ao Professor Martins, diretrizes para discorrer sobre os aspectos dessa aproximação quando, em um cartão postal que escreveu a um amigo, cita cinco pontos capitais de convergência, além da tendência geral de sua filosofia.


De acordo com o escrito de Nietzsche o primeiro ponto seria o reconhecimento por ambos da não existência do livre arbitrio; a não existência do mal - e subentende-se, portanto, que não existe também o bem; a não existência de causas finais, ou seja, de que algo existe no mundo porque tem uma finalidade - por exemplo: Deus criou a fruta para alimentar o homem, ou uma dificuldade para que o homem aprenda a superá-la; a não existência do desinteresse - não existe desinteresse, existem ações interessadas interesseiras e ações interessadas não interesseiras mas sempre existe o interesse e, por fim, o quinto ponto é a negação da ordem moral do mundo; Nietzsche e Espinoza negaram a existencia de um sentido moral intrinseco às próprias coisas, aos acontecimentos, às existência.


Para o Professor André Martins, Nietzsche foi muito feliz em perceber que esses cinco pontos, que seriam no seu entender, os pilares da tradição filosófica de toda a história da Filosofia, em particular da Modernidade e do Humanismo, são falhos, não existem, são ficções. Nietzsche foi muito preciso em ver que Espinoza já denunciava esses pontos na aurora da Modernidade.

Tanto Espinoza, no Século XVII, quando Nietzsche, no Século XIX, tentam mostrar que um verdade formal não existe. Segundo eles, nós só existimos no mundo sensível, na realidade, então a verdade consiste em conhecer uma verdade que seja formalmente impassível ou imutável. Esse é o grande ponto em comum entre eles, a tendência geral da filosofia dos dois que os distingue de toda a história da Filosofia.


Entrevista completa com o Professor André Martins, acesse: http://migre.me/4p8c7

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

O espírito "messiânico" dos ditadores

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Entre as diferentes aberrações a que o ser humano está sujeito e que ele próprio pode cometer talvez a mais maléfica seja julgar-se melhor que os outros. Os ditadores se julgam melhor que o resto do mundo e por isso se permitem decidir o destino de milhões de pessoas.
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Ditadores podem ser encontrados em muitos lugares, eles aparecem à frente de governos, de escolas, de empresas, de grupos religiosos etc. A característica marcante desses personagens é se considerarem seres especiais, mais sábios, mais inteligentes, mais santos do que todos os que estão à sua volta. Estão absolutamente convencidos de que todos são inferiores a eles. Acreditam, de verdade, que foram revestidos de uma missão e que precisam cumpri-la a qualquer custo: conduzir outros seres humanos a um determinado destino e que, esse destino, será melhor para todos.
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Esse caráter messiânico¹ dá segurança aos ditadores e, em alguns casos, legitima seu poder aos olhos de seus comandados. Para Max Weber trata-se de um sentimento "carismático", semelhante à definição do "dom da graça" cristão. Os detentores do "carisma" possuem características sobrenaturais - liderança, oratória, comando - poderes que transcendem os dos mortais comuns, que reúnem à sua volta amplas camadas de seguidores.
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Parece que o momento pelo qual o mundo está passando, esses personagens ficaram mais expostos, ocupando as páginas dos jornais, dos noticiários de televisão. Felizmente, alguns já saíram de cena, outros estão na eminência de sair. Cabe-nos ficar atentos para que nossas instituições (governo, empresas, escolas, instituições religiosas etc) não admitam o surgimento e a instalação de qualquer atitude semelhante.
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¹ O messianismo implica na vinda ou no retorno de um ser enviado por uma divindade que virá libertar a humanidade. O termo "messias" vem do Hebraico "mashiah" e do Grego "christós". Ele é uma entidade com poderes e tarefas que deve mobilizar a favor de um grupo ou de um povo subjugado. Em um sentido mais amplo, a expressão é utilizada também para se referir a alguém investido de uma missão sagrada.

domingo, setembro 12, 2010

SERÁ QUE "EU" ME BASTO??

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Uma das características marcantes da sociedade atual é, sem dúvida, o individualismo. Desejos egoístas e preocupação cada vez menor com o outro são marcas do momento histórico que vivemos. Essas atitudes trazem consequencias graves para a nossa sociedade, dentre elas podemos enumerar o aumento da violência, a desestruturação da familia e uma crescente superficialidade nas relações de amizade e afetivas de modo geral.

O homem atual é levado a procurar com afinco sua própria felicidade, sem saber muito bem o que exatamente isso significa. Isso tem levado a um exagero ao culto do "eu", daquele que foi destinado a viver em sociedade, mergulhando-o cada vez mais num individualismo desmedido e desregrado. O ser humano de maneira geral, tem se mostrado embrutecido diante dos dramas alheios, uma vez que aprendeu a cultuar seu próprio mundo, seu próprio ego. É bom lembrar, no entanto, que para construir sua personalidade o homem precisa de relacionamentos. Desenvolver maneiras de agir e de sentir, requer relacionamentos.

A humanidade só é possível porque existem seres humanos e apenas nos tornamos humanos dentro desta humanidade, vivendo esta natureza e, sobretudo, com quem nos relacionamos. Diante disso, é importante repensar as relações dos seres humanos entre si, perceber a necessidade que uns temos dos outros, dando a ele a mesma importância que acreditamos necessária a nós mesmos, para que o processo possa ser revertido.

Segundo Hegel, negar a importância do outro é negar o próprio autoconhecimento e querer se retirar da coexistência, da convivência, é viver "inautenticamente", como sugeriu Heidegger.

A partir da abertura para o outro, reconhecendo a dignidade dele, poderemos repensar as relações e até noções éticas para toda a humanidade.

Sugestões de leitura:


HEIDEGGER, M. Ser e Tempo, Editora Vozes;

HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito, Editora Vozes.